Relato de uma mãe tempestade.
O meu filho furacão chegou de forma imprevista e repentina. Depois um serão molengão no sofá, e a contar com a chegada do pequeno para daí a 8 dias, lembro-me de comentar com o pai do blog que aquele seria o último sábado antes da família crescer.
Pois que fomos para a cama e por volta das 7 da manhã levantei-me para aliviar a bexiga quando senti uma dor esquisita nos rins. Ignorei. Achei que a bexiga tinha estado cheia demais durante demasiado tempo. Voltei para a cama. Meia-hora depois voltei a levantar-me, sem ter adormecido, e tive que ir a correr (salvo seja, porque não o conseguia fazer. Alguém alguma vez já viu uma baleia a correr? Não, pois não? Bem me parecia.) para a casa de banho. Não digo o que é que lá fiz. Só pensei, mas o que é que eu comi?
Nisto, as dores dos rins deslocaram-se para o baixo ventre. E eu a pensar: "-Mau! Mas tu queres ver que o puto está para nascer?" Voltei a deitar-me. As dores intensificaram-se e ritmaram-se. E eu sem saber o que fazer, pois o parto do Salvador não começou de forma natural, por isso não estava bem certa quanto aos primeiros sintomas de início de trabalho de parto. Deixei-me estar deitadinha.
Às nove da manhã, não aguentei mais e chamei o pai da criança: "-Levanta-te e despacha-te que acho temos de ir parir!" E ainda me ri, porque conheço este homem tão bem e já sabia que ele se ia pôr andar meio aparvalhado pelo apartamento. Tal e qual.
Entretanto, acabei de fazer a minha mala e coloquei-a junto à porta de saída, juntamente com a mala do miúdo e a geleira da preservação das células do cordão umbilical.
Por esta altura, as dores já me cortavam a respiração e já tinha que me apoiar nas paredes quando a contracção chegava.
Já me questionva se chegaria a tempo a Coimbra ou se era melhor ir para Leiria.
Decidimos partir para Coimbra, onde o meu médico está de serviço. Nunca antes o caminho me pareceu tão comprido. Nunca antes o meu marido tinha deixado cair as moedas para pagar a portagem. Nunca antes eu tinha dito: -"Vai depressa mas com calma." Já dentro da cidade de Coimbra, parados nos semáforos vermelhos, eu achei que não chegava lá a tempo. Já gemia e já pensava que o melhor era encostar ali na bordinha da estrada.
O pai do blog pará mesmo à porta da maternidade e deixa-me sozinha para fazer check-in, enquanto estaciona o carro. Sim. Deixou-me sozinha. E lá fui eu. Sozinha. A caminhar tão depressa quanto podia em direcção ao guichêzinho onde um senhor me pediu a identificação. "-Olhe, ficou no carro!" E na volta, inclinei-me e sustive a respiração. O homem arregalou os olhos e mandou-me ir bater a uma porta mesmo ali ao lado. Bati. Chega o pai com a minha mala. Entro numa divisão. Entrego a minha papelada e peço para ir à casa de banho. Tinha pavor em fazer o número 2 quando o puto estivesse a nascer. Fui à casa de banho e achei que já não saía dali. Saí. Uma enfermeira mandou-me empoleirar numa marquesa. Empoleirei. Tocou-me. As águas rebentaram e ela diz para alguém que estava por trás dela:"-Esta tem que ir já para cima. Chamem rápido o Dr. XisPêTêÓ. Já está com 10." E eu só pensava: "Ó valha-me deus, estou com quê? Então e a epidural, hã?"
Obrigam-me a sentar numa cadeira de rodas só com a famosa bata de hospital. Eu não queria pousar-me no assento da cadeira. Eu não conseguia sentar-me direita sequer. Enfiam-me num elevador. Comigo segue a enfermeira que me tinha tocado e uma "ajudanta" que me informou que o pai do blog tinha ido ao carro buscar a mala do miúdo, a minha mala e a geleira. (Não sei porque é que ele não trouxe isso tudo quando veio de estacionar o carro...).
Durante a viagem no elevador, a enfermeira manda-me sentar sossegada e direita na cadeira. Digo-lhe que não consigo porque " -Sinto que o bebé está a nascer." Não está nada, responde ela. "-ESTÁ SIM!" - grito eu. E de repente, a mulher mete umas luvas nas mãos e agacha-se à minha frente. Pronto, vou ter um filho nascido num elevador. Bonito! - penso eu. Neste momento, a porta do elevador abre e a enfermeira grita: "-Está expulsivo!".
Empurram-me para uma pequena divisão. Obrigam-me a levantar e a empoleirar-me numa marquesa alta como o caraças. Assim que me encostei para trás, já deitada na marquesa, o puto põe a cabeça de fora. E antes de eu ter tempo para respirar e pensar realmente no que me estava a acontecer, e que não era nada daquilo que eu tinha planeado e que na 3ª feira ainda tinha consulta com o obstreta... Saí o miúdo disparado e danado que nem um cão. Encostam-no a mim e eu digo baixinho: "Olá, António." Pergunto pelo pai. Ele vem aí - alguém responde.
De repente, uma porta mesmo ao meu lado abre-se e aparece o pai afogueado com as malas todas embrulhadas nos braços.
Era domingo e eu sabia que os meus serões molengões no sofá estavam acabados. O meu filho furacão tinha chegado. O filho que me ensinou o que era ser mãe.
Parabéns, António. Um beijo desta mãe tempestade.
1º dia em casa, 2 de setembro 2010
Primeiros dentes Primeiros passos
29agosto2013